plantas ofendidas & reconciliações

em tempos de maior recolhimento, me pego revivendo momentos do ano de 2020 a.c. (antes do corona). e olha, é um acalento saber que  poucos meses foram tão relevantes quanto alguns anos. parte dessa relevância se deu por finalmente realizar o curso "Como Se Encontrar na Escrita", ministrado pela musa da escrita afetuosa Ana Holanda, na The School of Life. depois de anos (acho que uns cinco, juro) de tentativa, desencontros financeiros e de agenda, finalmente concretizei esse pequeno-sonho-grande-investimento-em-mim.


nesse embalo, gostaria de compartilhar o texto que nasceu do exercício final (e doloroso, chorei pakas) do curso e que, num recorte bem específico, fala bastante de mim, mas ~perpassa~ pela memória. e falar de memória é sempre necessário, seja em dias esquisitaaaaços, seja em tempos amenos ou aqueles em que a vibración da alegria tá lá no topo del topo. memória é vida que permanece na gente.

enfim, estoy reflexiva e aqui fica o registro, espero que inspire:


“Ela deve ter ficado ofendida.”


Poxa.

Como se já não bastasse os meus constantes esforços em lapidar as minhas francas colocações, agora também devo me atentar ao que eu deixo de dizer.

Ofendi uma muda. De planta.

Por, ironicamente, não saber dizer qual era o seu nome.


Por quê me lembro do nome do Jenipapeiro, mas não tenho nem pista do nome daquela que me foi entregue junto? Que audácia da minha memória seletiva.


Audácia também dela, a senhora franzina de cerca de 85 anos, que desencadeou todo esse pensar. Recolhida no assento preferencial do metrô, primeiro me surpreendeu com seu genuíno interesse pelo nome das mudas - tão deslocadas de seu habitat natural. Depois, com seu diagnóstico firme, ainda que doce, da ofensa que gerei na planta. E ainda, a terceira e maior surpresa ao me receitar o livro “A Vida Secreta das Plantas”, como um remédio para a minha indelicadeza.


Essas surpresas diante de um diálogo aparentemente banal, se justificam pelo fato de que enxergo a plena lucidez na 3ª idade como algo extraordinário, que tange o anormal. Cresci com apenas uma referência de idoso, a da minha avó, o que me levou a associar velhice à incapacidade. Sem julgamentos, esse é apenas um fato, que irei explicar.


Sessenta e poucos anos nos separavam e poucas coisas nos uniam. Entre essas, a garagem comum à nossas casas. Ali, as queridas plantas da minha avó se organizavam como uma plateia dos meus momentos de mais profunda diversão ao rodar bambolê, pular corda e amarelinha e, sabe-se lá como, andar de patins, patinete e até de bicicleta.

Orquídea, samambaia, avenca, flor de maio, lírio da paz. Divagava nesses nomes.

Violeta, que é também nome de mulher. 


Margarida.

Foi o nome que ela passou a chamar a minha mãe.

Não era o nome que ela havia escolhido para registrá-la. Mas foi o nome que veio, quando tanto começou a ir.


Sabe que, pensando agora, mesmo minha mãe não sendo Margarida, talvez há nela algo de planta? Porque ela ficou ofendida. Como eu e minha irmã, chorava de medo, mas também de frustração. Como se essa fosse mais uma das situações criadas por minha avó para chamar atenção de sua única filha. Mas dessa vez não era.


Era algo natural, que fugia do controle. O nome esquecido da própria é como a primeira folha que caduca, anunciando a mudança de estação. Ou indicando o adoecimento.

Então, a cada primavera, vivenciamos perdas gradativas e generalizadas. Sentimentos de inconformismo, raiva, angústia e descrença, também caducaram para que a resiliência, a ternura e a compaixão pudessem florescer.


Dramática, frequentemente ela argumentava sobre sua morte.

 “Eu nem vou estar mais aqui quando você…” - se formar, fizer 18 anos, entrar na faculdade, dirigir, namorar. Todas experiências que vivenciei nas 10 primaveras em que ela ainda estava aqui, mas já não estava mais.


Dela não tive indicações de livros, nem aquele caricato carinho atribuído à figura de avó. Mas a ausência de suas memórias me fez cuidadosa na preservação diária das minhas (ainda que me escape um nome de planta ou outro…).


Planta, vó, mãe: não vamos ficar ofendidas.

diga-me o que desejas, o que piensas...

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